Orkut vai voltar? Criador publica carta e abre petição por nova rede social

Empresário turco critica algoritmos e inteligência artificial e convida internautas a apoiar uma plataforma baseada em comunidades e pessoas reais

Orkut vai voltar? Criador publica carta e abre petição por nova rede social

Empresário turco critica algoritmos e inteligência artificial e convida internautas a apoiar uma plataforma baseada em comunidades e pessoas reais

O engenheiro de software turco Orkut Büyükkökten, criador da rede social que fez sucesso no Brasil nos anos 2000, publicou nesta quinta-feira (8) uma carta em que anuncia a intenção de lançar uma nova plataforma. No site oficial do Orkut, ele abriu uma petição online para reunir apoio ao projeto, que promete comunidades e pessoas reais no lugar de algoritmos.

Ainda não há data de lançamento, nome definido ou detalhes sobre o funcionamento da nova rede. A página informa que assinar a petição não garante nome de usuário, conta ou lugar em uma eventual fila de espera. 

O texto também esclarece que o documento não é dirigido a nenhum governo, órgão ou empresa. Ao assinar, o internauta apenas manifesta o desejo de que Büyükkökten crie a nova rede, segundo o formulário.

Escrita em primeira pessoa e aberta com um "Oi de novo. Sou eu, o Orkut", a carta faz críticas às redes sociais atuais. Büyükkökten afirma que, nas últimas duas décadas, as plataformas passaram a ser otimizadas para capturar a atenção dos usuários, com feeds construídos em torno do engajamento e não da conexão entre as pessoas.

Segundo ele, uma geração de crianças foi entregue a algoritmos que as viciaram, dividiram e venderam para anunciantes, contribuindo para que crescessem solitárias e ansiosas. O engenheiro afirma que ainda ama a indústria de tecnologia, mas considera desesperador ver o que ela se tornou. Ele cita o lema "Aja rápido e quebre coisas", associado aos primeiros anos do Facebook, e conclui que as coisas, de fato, estão quebradas.

A inteligência artificial (IA) ocupa parte central do texto. Büyükkökten reconhece que a tecnologia é extraordinária, mas afirma que ela está dissolvendo uma das premissas que tornaram as redes sociais especiais: a certeza de que havia uma pessoa do outro lado da tela. Entre os problemas citados estão bots (perfis automatizados), deepfakes (vídeos e áudios falsos criados com IA para imitar pessoas reais), agentes autônomos fora de controle e conteúdo sintético.

Para ele, a saída está naquilo de que antigos usuários dizem sentir mais falta: as comunidades. A carta cita grupos de pessoas que consertavam a mesma moto, pegavam a mesma linha de ônibus ou odiavam segunda-feira, nos moldes de comunidades famosas da rede original, como Eu Odeio Acordar Cedo. "Num feed, você é plateia; numa comunidade, você é membro", escreve.

O texto termina em tom afetivo. Büyükkökten afirma que a IA não consegue criar alegria, esperança, gratidão ou amor e diz imaginar uma internet com um ser humano do outro lado de cada mensagem, longe da lógica dos algoritmos e da disputa por tempo de tela. A carta é assinada com um "Love, Orkut", em inglês.

As críticas não significam que o projeto vá abrir mão da tecnologia. Em uma seção do site dedicada ao tema, Büyükkökten argumenta que nem sempre é possível saber se um comentário vem de uma pessoa de verdade, já que rostos e vozes conhecidos podem ser imitados de forma convincente. Para ele, isso corrói a confiança entre os usuários.

A proposta é usar a IA para ajudar a formar e aprofundar amizades e não para substituí-las. A página resume a proposta em três objetivos:

A rede imaginada teria apenas participantes reais, organizados em comunidades para aproximar as pessoas tanto online quanto pessoalmente.

O formulário fica na página inicial do Orkut e está disponível em português e outros oito idiomas, entre eles inglês, espanhol, japonês e turco.

O site também exibe um contador de assinaturas e um mapa com os 10 países de maior participação, em percentual do total, sem listar individualmente os apoiadores. A política de privacidade e os termos de uso estão no rodapé da página.

O Orkut foi lançado em 22 de janeiro de 2004, quando Büyükkökten trabalhava como engenheiro no Google e desenvolveu a rede como projeto paralelo. O nome veio do próprio criador.

Segundo o site oficial, a plataforma reuniu mais de 300 milhões de usuários no mundo e, no auge, respondia por mais de 50% das visualizações de página do Google.

O Brasil foi o maior público da rede, com cerca de 30 milhões de usuários. Em 2008, o Google transferiu a gestão do serviço para a filial brasileira, em Belo Horizonte.

Comunidades temáticas, depoimentos entre amigos, scraps (recados deixados no perfil) e a avaliação de perfis como "confiável" ou "legal" viraram rotina de uma geração que muitas vezes acessava a internet em lan houses.

Com o avanço do Facebook, o Orkut perdeu espaço. Em 30 de junho de 2014, o Google anunciou o encerramento da rede, que saiu do ar em 30 de setembro daquele ano.

Büyükkökten nasceu em Konya, na Turquia, em 6 de fevereiro de 1975, e tem mestrado e doutorado em Ciência da Computação pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos. Antes do Orkut, criou a Club Nexus, ainda na universidade, e a inCircle, voltada a ex-alunos. Hoje, mora em São Francisco.

Depois do fim do Orkut, lançou, em 2016, o aplicativo Hello, também com a promessa de aproximar pessoas por interesses em comum. O serviço, porém, não repetiu o sucesso e foi desativado.

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br