Opinião – Frederico Vasconcelos: Josué Gomes e o mito plantado na Avenida Paulista

Opinião – Frederico Vasconcelos: Josué Gomes e o mito plantado na Avenida Paulista

Em novembro de 2004, conversei com o industrial Josué Christiano Gomes da Silva, destituído há dois dias da presidência da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeara o vice-presidente da República José Alencar, pai de Josué, para o cargo de ministro da Defesa. Alencar, morto em 2011, substituiu o ministro José Viegas, que deixara o governo depois de atritos com os militares.

Naquela ocasião, vislumbrei a hipótese de que a Coteminas (Companhia de Tecidos Norte de Minas), empresa de Alencar, poderia ser fornecedora de tecidos para a confecção de fardamentos das Forças Armadas.

Era.

Josué, então diretor-presidente da Coteminas, veio ao telefone. Não recorreu a assessores. Confirmou que o grupo assumira meses antes o controle de uma empresa que tinha a Marinha e a Aeronáutica entre seus clientes.

“Estamos avaliando qual será a melhor forma de agir, se vamos interromper o fornecimento ou não”, disse ele. “Com a surpresa que tivemos [a nomeação do pai], desde ontem estamos estudando qual decisão tomar”.

Acompanhei durante anos, na Folha, os fatos envolvendo a Fiesp. Duas décadas depois, identifico, na destituição de Josué, distorções iguais às que registrei tempos atrás.

Como informa a jornalista Fernanda Perrin, em análise hoje na Folha, atribui-se ao ex-presidente Paulo Skaf, bolsonarista, oposição semelhante à enfrentada pelo presidente Horácio Piva (1998-2004), que tentou modernizar a entidade.

Piva anunciara, no dia da posse, um modelo de gestão participativa, elaborado pela Trevisan, firma privada de consultoria. A nova estrutura operacional acomodou em órgãos consultivos dirigentes ligados aos três presidentes anteriores (Carlos Eduardo Moreira Ferreira, Mario Amato e Luis Eulalio de Bueno Vidigal Filho).

“Skaf não é um empresário tradicional. Seus críticos, aliás, gostam de destacar que se trata de um industrial sem indústria”, escreveu Perrin.

No final dos anos 80, escrevi na Folha um artigo sob o título “Um Mito Plantado na Avenida Paulista“. Tratava da perda de influência da Fiesp, então citada na mídia como a “poderosa entidade da indústria”.

O artigo abria com bravata atribuída ao presidente Moreira Ferreira: “Ninguém governa este país sem o apoio desta casa”.

Morto em maio de 2022, o advogado, depois deputado federal pelo PFL, também foi “um industrial sem indústria”.

O ABC havia deixado de ser o centro de tensões no país. Com a redemocratização, o Congresso, em Brasília, passara a ser o palco maior dos conflitos de interesses. A Fiesp perdera o poder de indicar e “fritar” ministros.

Perrin diz que Skaf “soube reunir em torno de si os interesses de dirigentes de sindicatos de pouco peso, sintomas de uma indústria combalida, que vivem de e para a Fiesp”.

Em 1995, o artificialismo da representação sindical era exemplar no conjunto 1.009 do prédio da Fiesp. Ali estavam abrigados os sindicatos de cordoalha e estopa, balanças, pesos e medidas e os de discutível contribuição para o PIB paulista, como os de chapéus, guarda-chuvas e bengalas.

Esses “sindicatos de papel” mantinham poder de voto igual ao do sindicato da indústria de máquinas.

Havia um sindicato de chapéus de “homem” e um de “senhoras”. O sindicato da “indústria da confecção de roupas” coexistia com o sindicato da indústria de “alfaiataria e de confecção de roupas de homem” e com o de “camisas para homem”.

O advogado Miguel Reale Jr., que representa Josué, diz que a destituição foi uma reação ao fato de o empresário ter organizado um manifesto a favor da democracia, do qual participaram a Febraban e entidades sindicais. “É golpe em letras grandes”, diz ele.

Na mesma Folha, a jornalista Fernanda Brigatti diz que, “apesar de apartidário, o documento foi entendido como de oposição ao então presidente Jair Bolsonaro (PL), de quem Paulo Skaf, ex-presidente da entidade, foi apoiador nas eleições de 2022.

Ou seja, uma manifestação da Fiesp a favor do “mito” Bolsonaro; vinte anos atrás, o mito era a própria entidade.


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Fonte: Agencia Brasil